Ainda a propósito da finitude, tema central da minha mensagem anterior ("Um Novo Recomeço"), veio-me recentemente à memória um filme de 2012 do excelente realizador chinês Ang Lee, indelevelmente associado a outras películas incontornáveis tais como "O Tigre e o Dragão" e "O Segredo de Brokeback Mountain".
Trata-se de "A Vida de Pi", uma obra-prima da 7ª Arte que me marcou profundamente pela beleza extrema e até mesmo invasiva, por tão "selvagem", das suas imagens, assim como pela poderosa magia que salpica e condimenta, qual especiaria de ouro, a maravilhosa história de sobrevivência contada por "Pi" Patel a um novelista canadiano (Yann Martel - o autor do livro que serviu de base ao filme).
Aquela que parecia ser uma "simples" viagem de barco da Índia para o Canadá, fruto da decisão do seu pai de emigrar, conjuntamente com a família e respectivo Zoo, transforma-se na jornada de uma vida para Pi, fonte inesgotável de ensinamentos que perdurariam para o resto da sua eternidade.
Esta fantástica "dança" pela sobrevivência, coreografada magistralmente por Ang Lee, naquele que será indubitavelmente um espaço mais do que exíguo para ser partilhado entre um jovem ser humano (Pi) e um feroz Tigre de Bengala (Richard Parker) - um minúsculo bote salva-vidas - leva o espectador a esquecer-se completamente desta fronteira espacial e a focar-se exclusivamente nos marcantes momentos desta luta entre o "Homem" e a "Fera" que pauta, na realidade, toda a História da Humanidade, ora no sentido mais literal (a tentativa de domínio do Homem sobre a Natureza), ora num sentido mais figurado (a dualidade "Bem" e "Mal" que coabita sempre dentro de nós).
Para a minha "eternidade" ficam, pelo menos, duas mensagens fundamentais e um momento verdadeiramente marcante:
MENSAGEM I
Pi, apesar de educado como Hindu e vegetariano, decide, após ter sido apresentado, aos 12 anos, ao Cristianismo e Islamismo, seguir as três religiões, em simultâneo, porque o seu desejo é apenas de "amar a Deus"... Que magnífica, tão pura e despretensiosa demonstração de verdadeiro ecumenismo, no seu sentido mais lato ! É que o verdadeiramente importante é mesmo a Fé e as suas manifestações visíveis e não qualquer Religião !...
MENSAGEM II
Após a chegada ao México, Pi é resgatado e levado para o Hospital. Quando é entrevistado pela companhia de seguros e conta a sua história, tal e qual se passou, ninguém acredita e perguntam-lhe o que "verdadeiramente" aconteceu, de tal forma que Pi se vê obrigado a inventar algo que seja mais verosímil. O que demonstra que a verdade pode, muitas vezes, ser muito mais difícil de aceitar do que a mentira...
O MOMENTO, PARA MIM, MAIS MARCANTE
Após a chegada do bote salva-vidas à costa do México, Richard Parker parte, de forma fria, desprendida e implacável, desaparecendo por entre a floresta, sem sequer olhar para trás... E este monólogo de Pi é verdadeiramente avassalador por corresponder, de forma nua e crua, tantas vezes, à realidade das nossas vidas!
"E, por isso, Richard Parker foi à minha frente.
Esticou as suas pernas e caminhou pela praia.
À beira da selva, parou.
Tinha a certeza de que ele ia olhar para trás, para mim,
encostar as orelhas à cabeça, rosnar.
Que, de alguma maneira, ia pôr um fim à nossa relação.
Mas apenas olhou em frente, para a selva.
E então Richard Parker, o meu companheiro feroz...
e terrível que me manteve vivo...
desapareceu, para sempre, da minha vida.
Algumas horas depois, um membro da minha espécie encontrou-me.
Deixou-me e regressou com um grupo que me levou.
Eu chorava como uma criança.
Não por estar emocionado por ter sobrevivido, embora estivesse.
Chorava porque Richard Parker me tinha deixado tão abruptamente.
Partiu-me o coração.
Sabe, o meu pai tinha razão.
Richard Parker nunca me viu como um amigo.
Depois de tudo o que passámos juntos, nem sequer olhou para trás.
Mas tenho que acreditar que havia mais nos seus olhos...
do que o meu próprio reflexo a olhar-me de volta.
Sei que sim. Senti-o.
Mesmo que não possa prová-lo.
Sabe, deixei tanta coisa para trás...
A minha família, o Zoo, a Índia, Anandi.
Suponho que, no fim, a vida inteira torna-se num desprendimento.
Mas o que mais me magoa sempre...
é não haver um momento para a despedida.
Nunca pude agradecer ao meu pai tudo o que aprendi com ele.
Dizer-lhe que, sem as suas lições, nunca teria sobrevivido.
Sei que Richard Parker é um tigre, mas gostava de ter dito,
"Acabou-se. Sobrevivemos!
"Obrigado por me teres salvo a vida. Amo-te Richard Parker."
"Estarás sempre comigo
Que Deus esteja contigo"
Friday, January 17, 2014
Sunday, January 12, 2014
UM NOVO RECOMEÇO
Mais uma noite de INSÓNIA...
Às voltas por entre os lençóis da minha cama, debato-me, qual pássaro numa GAIOLA, num misto de pensamentos, silêncios e omissões...
Dou por mim extasiado e inebriado por MELODIAS fantásticas que ecoam dentro de mim, por acordes magníficos e ritmos avassaladores que me impelem a sair prestissimo deste leito de torpor para gravá-los em partitura... Mas lá fora está frio e a PREGUIÇA prevalece... Como consolação penso que, um dia, talvez, quem sabe, hei-de conseguir deixar transbordar toda esta CRIATIVIDADE que me assalta, que me invade, ora doce e prazenteiramente, ora amarga e tristemente, mas sempre inadvertidamente, sem data nem hora marcada...
E ponho-me a PENSAR...
Passou-se o dia do meu aniversário e, logo após, num ápice, esfumaram-se as "Festas", um período sempre fértil de MEMÓRIAS, cheiros e sensações, reminiscências de passados mais ou menos remotos que iluminam o pequeno mas denso e rico sótão das minhas recordações...
Vem-me à memória "A Christmas Carol", o mágico conto de Charles Dickens que tanto me fez SONHAR em criança, marcado pela apaixonante figura de Mr. Scrooge, o misantropo avarento que se redime perante as assombrações dos fantasmas do Natal Passado, do Natal Presente e do Natal Futuro...
E olho para mim, em retrospectiva, enquanto CRIANÇA...
Ah, como é bom ser criança e poder sonhar sem limites nem restrições, sem condicionamentos nem baias, encapsulado num estádio ainda puro e cristalino da consciência...
Acreditar que tudo é infinito e que as histórias têm, todas elas, um final FELIZ...
À medida que os anos vão passando vamo-nos apercebendo da nossa impotência perante grande parte do que nos rodeia e acabamos invariavelmente, mais cedo ou mais tarde, por aceitar a FINITUDE como constante da vida.
O conceito de INFINITO vai, progressivamente, esbatendo-se, esboroando-se perante as intempéries da existência e vamo-nos apercebendo de que infinito, só mesmo o AMOR, porque não nos é possível mensurá-lo. Munidos das mais poderosas ferramentas e dos recursos necessários seria talvez possível contar todos os grãos de areia de todas as praias do Mundo...
Mas não conseguiremos nunca calibrar nem quantificar o amor porque, apesar de camuflado nas nossas mais recônditas profundezas e, talvez por isso mesmo, ele brota do nosso âmago como força motriz de tudo o que há de mais autêntico, precioso e intrínseco em nós. Paradoxalmente, sendo um sentimento considerado eminentemente humano aproxima-nos, de forma única e inigualável, do Ser Supremo, por se alimentar da energia vital e imortal que vive em nós e constitui a nossa ESSÊNCIA.
E PENSO para comigo... Sendo assim, que sentido faz este modelo de sociedade em que vivemos?
Por que razão continuamos, obstinada e irracionalmente, a anestesiarmo-nos, colocando-nos deliberadamente nas malhas da ilusão e da efemeridade, nas rodas mais aguçadas desta ENGRENAGEM dantesca, desta máquina trituradora que nos transforma e nos deprecia, quais ingredientes baratos para produção de "fast food"?
Para quê continuarmos a fingir que somos IMORTAIS, concentrando todas as nossas energias na materialidade vazia e fútil, na adoração pagã dos deuses dinheiro e poder, na voragem arrasadora da ambição desmedida ?
Por que razão continuamos a ser, como dizia Pablo Neruda, o nosso mais pérfido inimigo ?
Para quê continuamos a valorizar apenas o "ter" e não o "ser" ? Que diabo, como diria o meu homónimo Zé Pedro Cobra, afinal, somos "seres humanos" e não "teres humanos" !... E o Ser, acredito, é bem mais perene do que o Ter !!!
Por que razão teimamos em viver o breve período que decorre entre o instante do nosso nascimento e o momento da nossa morte (como diz o Frei Fernando Ventura) de uma forma tão desesperantemente superficial e desprovida de sentido, particularmente nas nossas relações?
Começando pela relação connosco próprios que é, desde logo, completamente marginalizada e colocada, por nós mesmos, algozes da nossa própria sorte, a anos-luz das nossas prioridades... A falta de "tempo" é uma boa desculpa para a fuga ao diálogo interior constante, tão necessário ao nosso desenvolvimento pessoal e à nossa sanidade mental.
A nossa relação com os Outros também não é excepção... "Bom dia", "Boa tarde!", "Como vai ?", "Cá vou andando...", "O tempo hoje está bera", "Aquilo não era penálti!", são frases frequentes, manifestos da vontade de fingirmos que efectivamente estamos a comunicar com os outros. Mas, será que é isso que estamos a fazer ? Perguntemo-nos, sem receio nem fingimento, qual foi a última vez em que falámos com um amigo acerca de um assunto que nos toca profundamente e partilhámos, VERDADEIRAMENTE, nem que seja um vislumbre da nossa essência ?
Neste ano 2014 que ainda é "bebé", escutemos, singela e abertamente, a tímida "deixa" de mais este novo "início" que está aqui mesmo, à nossa disposição, e aproveitemos a oportunidade para soltar os cavalos selvagens da nossa CORAGEM e AUDÁCIA!
Que sejamos capazes de dar o impulso decisivo à MUDANÇA, começando primeiramente no "EU", pela disponibilidade para uma intervenção cívica e solidária junto aos outros, e evoluindo posteriormente para o "TU", iluminando e motivando quem nos rodeia para a incorporar. SEI que, desta forma, chegaremos ao apogeu desta transformação em "NÓS", de forma progressiva mas definitiva, lançando consecutivas e decisivas pedradas neste charco pardacento e estéril que nos rodeia, dando marcha à REVOLUÇÃO DOS AFECTOS (de que tão bem fala o Frei Fernando Ventura), gerando a massa crítica necessária para tornar imparável !!!
Começando pela relação connosco próprios que é, desde logo, completamente marginalizada e colocada, por nós mesmos, algozes da nossa própria sorte, a anos-luz das nossas prioridades... A falta de "tempo" é uma boa desculpa para a fuga ao diálogo interior constante, tão necessário ao nosso desenvolvimento pessoal e à nossa sanidade mental.
A nossa relação com os Outros também não é excepção... "Bom dia", "Boa tarde!", "Como vai ?", "Cá vou andando...", "O tempo hoje está bera", "Aquilo não era penálti!", são frases frequentes, manifestos da vontade de fingirmos que efectivamente estamos a comunicar com os outros. Mas, será que é isso que estamos a fazer ? Perguntemo-nos, sem receio nem fingimento, qual foi a última vez em que falámos com um amigo acerca de um assunto que nos toca profundamente e partilhámos, VERDADEIRAMENTE, nem que seja um vislumbre da nossa essência ?
Neste ano 2014 que ainda é "bebé", escutemos, singela e abertamente, a tímida "deixa" de mais este novo "início" que está aqui mesmo, à nossa disposição, e aproveitemos a oportunidade para soltar os cavalos selvagens da nossa CORAGEM e AUDÁCIA!
Que sejamos capazes de dar o impulso decisivo à MUDANÇA, começando primeiramente no "EU", pela disponibilidade para uma intervenção cívica e solidária junto aos outros, e evoluindo posteriormente para o "TU", iluminando e motivando quem nos rodeia para a incorporar. SEI que, desta forma, chegaremos ao apogeu desta transformação em "NÓS", de forma progressiva mas definitiva, lançando consecutivas e decisivas pedradas neste charco pardacento e estéril que nos rodeia, dando marcha à REVOLUÇÃO DOS AFECTOS (de que tão bem fala o Frei Fernando Ventura), gerando a massa crítica necessária para tornar imparável !!!
Que o Ano 2014 seja mesmo NOVO!!!
Deixo aqui o som da "Ode à Alegria" da 9ª Sinfonia de Beethoven, com texto de Schiller... Bem a propósito !
http://www.youtube.com/watch?v=x33ZKDZ2aN8
Deixo aqui o som da "Ode à Alegria" da 9ª Sinfonia de Beethoven, com texto de Schiller... Bem a propósito !
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