Friday, January 17, 2014

A VIDA DE PI

Ainda a propósito da finitude, tema central da minha mensagem anterior ("Um Novo Recomeço"), veio-me recentemente à memória um filme de 2012 do excelente realizador chinês Ang Lee, indelevelmente associado a outras películas incontornáveis tais como "O Tigre e o Dragão" e "O Segredo de Brokeback Mountain".

Trata-se de "A Vida de Pi", uma obra-prima da 7ª Arte que me marcou profundamente pela beleza extrema e até mesmo invasiva, por tão "selvagem", das suas imagens, assim como pela poderosa magia que salpica e condimenta, qual especiaria de ouro, a maravilhosa história de sobrevivência contada por "Pi" Patel a um novelista canadiano (Yann Martel - o autor do livro que serviu de base ao filme).

Aquela que parecia ser uma "simples" viagem de barco da Índia para o Canadá, fruto da decisão do seu pai de emigrar, conjuntamente com a família e respectivo Zoo, transforma-se na jornada de uma vida para Pi, fonte inesgotável de ensinamentos que perdurariam para o resto da sua eternidade.

Esta fantástica "dança" pela sobrevivência, coreografada magistralmente por Ang Lee, naquele que será indubitavelmente um espaço mais do que exíguo para ser partilhado entre um jovem ser humano (Pi) e um feroz Tigre de Bengala (Richard Parker) - um minúsculo bote salva-vidas - leva o espectador a esquecer-se completamente desta fronteira espacial e a focar-se exclusivamente nos marcantes momentos desta luta entre o "Homem" e a "Fera" que pauta, na realidade, toda a História da Humanidade, ora no sentido mais literal (a tentativa de domínio do Homem sobre a Natureza), ora num sentido mais figurado (a dualidade "Bem" e "Mal" que coabita sempre dentro de nós). 

Para a minha "eternidade" ficam, pelo menos, duas mensagens fundamentais e um momento verdadeiramente marcante:

MENSAGEM I
Pi, apesar de educado como Hindu e vegetariano, decide, após ter sido apresentado, aos 12 anos, ao Cristianismo e Islamismo, seguir as três religiões, em simultâneo, porque o seu desejo é apenas de "amar a Deus"... Que magnífica, tão pura e despretensiosa demonstração de verdadeiro ecumenismo, no seu sentido mais lato ! É que o verdadeiramente importante é mesmo a Fé e as suas manifestações visíveis e não qualquer Religião !...

MENSAGEM II
Após a chegada ao México, Pi é resgatado e levado para o Hospital. Quando é entrevistado pela companhia de seguros e conta a sua história, tal e qual se passou, ninguém acredita e perguntam-lhe o que "verdadeiramente" aconteceu, de tal forma que Pi se vê obrigado a inventar algo que seja mais verosímil. O que demonstra que a verdade pode, muitas vezes, ser muito mais difícil de aceitar do que a mentira...

O MOMENTO, PARA MIM, MAIS MARCANTE
Após a chegada do bote salva-vidas à costa do México, Richard Parker parte, de forma fria, desprendida e implacável, desaparecendo por entre a floresta, sem sequer olhar para trás... E este monólogo de Pi é verdadeiramente avassalador por corresponder, de forma nua e crua, tantas vezes, à realidade das nossas vidas!


"E, por isso, Richard Parker foi à minha frente.
Esticou as suas pernas e caminhou pela praia.
À beira da selva, parou.
Tinha a certeza de que ele ia olhar para trás, para mim,
encostar as orelhas à cabeça, rosnar.
Que, de alguma maneira, ia pôr um fim à nossa relação.
Mas apenas olhou em frente, para a selva.
E então Richard Parker, o meu companheiro feroz...
e terrível que me manteve vivo...
desapareceu, para sempre, da minha vida.
Algumas horas depois, um membro da minha espécie encontrou-me.
Deixou-me e regressou com um grupo que me levou.
Eu chorava como uma criança.
Não por estar emocionado por ter sobrevivido, embora estivesse.
Chorava porque Richard Parker me tinha deixado tão abruptamente.
Partiu-me o coração.
Sabe, o meu pai tinha razão.
Richard Parker nunca me viu como um amigo.
Depois de tudo o que passámos juntos, nem sequer olhou para trás.
Mas tenho que acreditar que havia mais nos seus olhos...
do que o meu próprio reflexo a olhar-me de volta.
Sei que sim. Senti-o.
Mesmo que não possa prová-lo.
Sabe, deixei tanta coisa para trás...
A minha família, o Zoo, a Índia, Anandi.
Suponho que, no fim, a vida inteira torna-se num desprendimento.
Mas o que mais me magoa sempre...
é não haver um momento para a despedida.
Nunca pude agradecer ao meu pai tudo o que aprendi com ele.
Dizer-lhe que, sem as suas lições, nunca teria sobrevivido.
Sei que Richard Parker é um tigre, mas gostava de ter dito,
"Acabou-se. Sobrevivemos!
"Obrigado por me teres salvo a vida. Amo-te Richard Parker."
"Estarás sempre comigo
Que Deus esteja contigo"

Sunday, January 12, 2014

UM NOVO RECOMEÇO

Mais uma noite de INSÓNIA...
Às voltas por entre os lençóis da minha cama, debato-me, qual pássaro numa GAIOLA, num misto de pensamentos, silêncios e omissões...
Dou por mim extasiado e inebriado por MELODIAS fantásticas que ecoam dentro de mim, por acordes magníficos e ritmos avassaladores que me impelem a sair prestissimo deste leito de torpor para gravá-los em partitura... Mas lá fora está frio e a PREGUIÇA prevalece... Como consolação penso que, um dia, talvez, quem sabe, hei-de conseguir deixar transbordar toda esta CRIATIVIDADE que me assalta, que me invade, ora doce e prazenteiramente, ora amarga e tristemente, mas sempre inadvertidamente, sem data nem hora marcada...
E ponho-me a PENSAR...
Passou-se o dia do meu aniversário e, logo após, num ápice, esfumaram-se as "Festas", um período sempre fértil de MEMÓRIAS, cheiros e sensações, reminiscências de passados mais ou menos remotos que iluminam o pequeno mas denso e rico sótão das minhas recordações...
Vem-me à memória "A Christmas Carol", o mágico conto de Charles Dickens que tanto me fez SONHAR em criança, marcado pela apaixonante figura de Mr. Scrooge, o misantropo avarento que se redime perante as assombrações dos fantasmas do Natal Passado, do Natal Presente e do Natal Futuro...
E olho para mim, em retrospectiva, enquanto CRIANÇA...
Ah, como é bom ser criança e poder sonhar sem limites nem restrições, sem condicionamentos nem baias, encapsulado num estádio ainda puro e cristalino da consciência...
Acreditar que tudo é infinito e que as histórias têm, todas elas, um final FELIZ...
À medida que os anos vão passando vamo-nos apercebendo da nossa impotência perante grande parte do que nos rodeia e acabamos invariavelmente, mais cedo ou mais tarde, por aceitar a FINITUDE como constante da vida.
O conceito de INFINITO vai, progressivamente, esbatendo-se, esboroando-se perante as intempéries da existência e vamo-nos apercebendo de que infinito, só mesmo o AMOR, porque não nos é possível mensurá-lo. Munidos das mais poderosas ferramentas e dos recursos necessários seria talvez possível contar todos os grãos de areia de todas as praias do Mundo...
Mas não conseguiremos nunca calibrar nem quantificar o amor porque, apesar de camuflado nas nossas mais recônditas profundezas e, talvez por isso mesmo, ele brota do nosso âmago como força motriz de tudo o que há de mais autêntico, precioso e intrínseco em nós. Paradoxalmente, sendo um sentimento considerado eminentemente humano aproxima-nos, de forma única e inigualável, do Ser Supremo, por se alimentar da energia vital e imortal que vive em nós e constitui a nossa ESSÊNCIA.
E PENSO para comigo... Sendo assim, que sentido faz este modelo de sociedade em que vivemos?
Por que razão continuamos, obstinada e irracionalmente, a anestesiarmo-nos, colocando-nos deliberadamente nas malhas da ilusão e da efemeridade, nas rodas mais aguçadas desta ENGRENAGEM dantesca, desta máquina trituradora que nos transforma e nos deprecia, quais ingredientes baratos para produção de "fast food"?
Para quê continuarmos a fingir que somos IMORTAIS, concentrando todas as nossas energias na materialidade vazia e fútil, na adoração pagã dos deuses dinheiro e poder, na voragem arrasadora da ambição desmedida ?
Por que razão continuamos a ser, como dizia Pablo Neruda, o nosso mais pérfido inimigo ?
Para quê continuamos a valorizar apenas o "ter" e não o "ser" ? Que diabo, como diria o meu homónimo Zé Pedro Cobra, afinal, somos "seres humanos" e não "teres humanos" !... E o Ser, acredito, é bem mais perene do que o Ter !!!
Por que razão teimamos em viver o breve período que decorre entre o instante do nosso nascimento e o momento da nossa morte (como diz o Frei Fernando Ventura) de uma forma tão desesperantemente superficial e desprovida de sentido, particularmente nas nossas relações?
Começando pela relação connosco próprios que é, desde logo, completamente marginalizada e colocada, por nós mesmos, algozes da nossa própria sorte, a anos-luz das nossas prioridades... A falta de "tempo" é uma boa desculpa para a fuga ao diálogo interior constante, tão necessário ao nosso desenvolvimento pessoal e à nossa sanidade mental.
A nossa relação com os Outros também não é excepção... "Bom dia", "Boa tarde!", "Como vai ?", "Cá vou andando...", "O tempo hoje está bera", "Aquilo não era penálti!", são frases frequentes, manifestos da vontade de fingirmos que efectivamente estamos a comunicar com os outros. Mas, será que é isso que estamos a fazer ? Perguntemo-nos, sem receio nem fingimento, qual foi a última vez em que falámos com um amigo acerca de um assunto que nos toca profundamente e partilhámos, VERDADEIRAMENTE, nem que seja um vislumbre da nossa essência ?
Neste ano 2014 que ainda é "bebé", escutemos, singela e abertamente, a tímida "deixa" de mais este novo "início" que está aqui mesmo, à nossa disposição, e aproveitemos a oportunidade para soltar os cavalos selvagens da nossa CORAGEM e AUDÁCIA!
Que sejamos capazes de dar o impulso decisivo à MUDANÇA, começando primeiramente no "EU", pela disponibilidade para uma intervenção cívica e solidária junto aos outros, e evoluindo posteriormente para o "TU", iluminando e motivando quem nos rodeia para a incorporar. SEI que, desta forma, chegaremos ao apogeu desta transformação em "NÓS", de forma progressiva mas definitiva, lançando consecutivas e decisivas pedradas neste charco pardacento e estéril que nos rodeia, dando marcha à REVOLUÇÃO DOS AFECTOS (de que tão bem fala o Frei Fernando Ventura), gerando a massa crítica necessária para tornar imparável !!!
Que o Ano 2014 seja mesmo NOVO!!!
Deixo aqui o som da "Ode à Alegria" da 9ª Sinfonia de Beethoven, com texto de Schiller... Bem a propósito !
http://www.youtube.com/watch?v=x33ZKDZ2aN8

Saturday, May 25, 2013

"Sabes quem sou ?" - pergunto-me

É noite...

Lá fora, uma suave e tímida brisa acaricia as árvores do jardim que, síncrona e suavemente, baloiçam e ondulam, tal como as cálidas águas do Mediterrâneo (ah, doces reminiscências do doce aroma de Yasmine Hammamet !...).


O manto de relva é inundado pela prata de uma vigorosa e omnipresente Lua Cheia que desafia, formosa mas não segura, provocante e destemida, o lobisomem que existe em cada um de nós...


Os candeeiros completam esta improvável paleta de cores, projectando um intenso amarelo nesta solitária mas não inóspita paisagem.


Oiço, num maravilhoso misto de êxtase, emoção e (re)descoberta, os dois primeiros Concertos de Rachmaninov, na interpretação de Krystian Zimerman e Seiji Ozawa.


Realizo, subitamente, a impossibilidade de escrever na ausência da poderosa e inspiradora presença de uma obra de arte musical. Escrever é pulsar, é respirar, é viver... E a vida, sem Música, certamente desfaleceria, desprovida de sentido, qual girassol num planeta perpetuamente nublado...


A minha mente navega livremente e questiono-me...


Porquê "O Caminhante no Deserto", nome eventualmente presunçoso que atribuí, de forma precipitada e irreflectida, a este blog que decidi iniciar ?


Será que, de forma subconsciente, me sinto numa caminhada solitária pelo deserto, por definição um lugar estéril e desabitado ? Ou será que o deserto está dentro de mim e apenas procuro, desesperadamente, encontrar um oásis ?


Poderia, com maior probabilidade, ter escolhido "O Lobo das Estepes", nome do livro de Herman Hesse, o genial autor que deixou e continua a deixar marcas indeléveis na minha percepção do mundo e do meu universo interior...


"O Lobo da Estepe era um homem de cerca de 50 anos que, certa vez, faz alguns anos, 

apareceu em casa de minha tia à procura de um quarto mobiliado para alugar. Interessou-se por um compartimento no andar superior, bem como por um dormitório contíguo ao mesmo. Voltou dias depois, trazendo consigo duas malas e uma grande caixa com livros, e morou conosco durante cerca de nove ou dez meses. Vivia muito sossegado e para si. Não fora a proximidade de nossos dormitórios nos proporcionar ocasionais encontros na escada e no corredor, e não nos teríamos conhecido, pois o homem era de fato insociável. E insociável a tal ponto que assim, estou para dizer, eu jamais observara em quem quer que fosse. Era realmente um Lobo da Estepe, conforme ele próprio, às vezes, costumava chamar-se: um ser estranho, selvagem e, ao mesmo tempo, tímido, muito tímido mesmo, pertencente a um mundo bem diverso do meu."

Poderia também, possivelmente, ter-lhe chamado, "O Fundo do Pântano", inspirado pelo "Fond de l'Etang" do filme "Les Choristes", o internato para crianças "difíceis" cujo destino é alterado, para sempre, pela forte mas sempre doce personalidade de Clément Mathieu, um professor com quem, vá-se lá saber porquê, me identifico profundamente.

E poderia perguntar-me, paradoxalmente, "Sabes quem sou ? Eu não sei.", lembrando o poema de Fernando Pessoa...


"Sabes quem sou? Eu não sei.

Outrora, onde o nada foi,
Fui o vassalo e o rei.
É dupla a dor que me dói.
Duas dores eu passei.
Fui tudo que pode haver.
Ninguém me quis esmolar;
E entre o pensar e o ser
Senti a vida passar
Como um rio sem correr."

"Sabes quem sou" - pergunto-me...

E temo, no meu mais profundo íntimo, a mera probabilidade de poder ser presunção sentir-me "poeta", nas palavras de Florbela Espanca:


"Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!"

"Sabes quem sou ?" - continuo a perguntar-me...

Sunday, May 12, 2013

Insónia

É madrugada de sexta-feira ...
O relógio marca 1h28 e pressinto, escusadamente, algo que qualquer calendário lunar me poderia ter proclamado, de forma cabal, autoritária, peremptória e definitiva: é Lua Nova e um novo ciclo acaba, inexoravelmente, de iniciar-se...
E sinto-me, pura e candidamente, fascinado por essa inexorabilidade, por esse destino inevitável, por essa fatalidade...
É tão bom saber que nada, mas mesmo nada, nem ninguém, poderão travar esse processo, gizado pelo Criador Supremo, o Tecedor de Todas as Teias, simultânea e paradoxalmente  invisíveis mas reais, os elos que nos fazem, a todos, pertencer a esta mesma consciência colectiva Universal...
É que, garantidamente, não haverá qualquer Decreto-Lei, Convenção, Dogma ou Preconceito que sejam capazes de travar este processo, esta liturgia, este excelso mecanismo que deprecia, irremediavelmente, todo e qualquer relógio suíço.
Tento preparar-me, no tépido conforto do meu leito, para um sono que se deseja reparador, tão inútil mas, ao mesmo tempo, tão imprescindível...
Os meus pensamentos procuram fugir às reverberações dos depressivos noticiários das várias televisões e ecoam em mim, vá-se lá saber porquê, os versos e acordes de "Sad", uma canção do álbum "Overexposed" dos Maroon 5...

"...

Oh, but I'm scared to death
That there may not be another one like this
And I confess that I'm only holding on by a thin, thin thread

...
I'm so sad, sad"


Procuro fugir à insónia mas sou assaltado por uma fatal certeza: alguns compatriotas meus (nossos !!!), já estão, desgraçadamente, a viver no "4º Mundo", um submundo deste pretenso civilizado microcosmo em que vivemos, um verdadeiro gueto nos dias de hoje, muito para além dos muros da nossa indiferença.

E vêem-me à memória os versos da Sophia de Mello Breyner Andresen:


"Vemos, ouvimos e lemos

Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror

...

Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado"


E, subitamente, faz-se luz neste emaranhado e intrincado labirinto de pensamentos e de emoções, qual epifania. Tal como a algo distante mas sempre omnipresente Lua, que inicia, periodicamente, um novo e imparável ciclo, tal como a gentil e generosa Primavera, que, garantidamente, nos incita a renascer, ano após ano, em sintonia com a pródiga Natureza, iniciemos, todos nós, individual e colectivamente, um novo ciclo, nas nossas Ambições, nos nossos Objectivos, nos nossos Projectos, nas nossas Vidas...

Deixemos a cega e fria esquizofrenia tecnocrática dos números e o redutor funil da perspectiva exclusivamente económica e financeira...
Larguemos também o conforto de nos sentarmos, (in)comodamente, face ao nosso Muro das Lamentações, plenos de direitos mas ausentes de deveres...
Passemos ao inevitável estágio seguinte desta nossa caminhada colectiva, rumo à Consciência e Progresso Social, rumo à Iniciativa e Empreendedorismo, rumo à Participação e Cidadania, rumo a um Presente... com Futuro !!!

Wednesday, May 1, 2013

Prólogo

Fim de tarde...
Lá fora o vento frio, certamente extraviado de outras paragens mais setentrionais, sopra, implacável e assertivo, indiferente ao transir dos impotentes transeuntes. Mas, incauto, ele não se apercebe que aquece, de forma impune e definitiva, a minha ânsia de liberdade e a aversão à pacata monotonia deste monótono quotidiano.
Começo a sentir em mim uma emoção quase incontrolável e resquícios de um qualquer Monte de Santa Helena, um vulcão há muito inactivo mas nunca extinto...
Os astros (finalmente!) alinharam-se e, qual maré de sizígia, (in)comodamente sentado diante do meu portátil, eis que decido começar a navegar por mares já dantes, por outros, navegados, muito para além dos meus mais loucos sonhos, um risco assumido, a concretização de um duvidoso e já vetusto plano : a publicação de um blog...
Sei que não vai ser fácil, depois de tantos anos de torpor criativo...
Mas, por que não ?!
Tentarei ser como que um "pulsar", uma estrela de neutrões, pequena e densa que, com um período irregular e indeterminado, dependente da "veia", inspiração e tema, irá emitir, qual farol do Cabo das Tormentas, "sinais" para o mundo exterior.
Começo esta minha viagem pela "blogosfera", esta intrincada rede de pensamentos, palavras e omissões, ao som dos Muse, uma genial banda de rock inglesa que, paradoxalmente, me inspira de forma subtil mas simultaneamente profunda, arrebatadora e contundente.
O seu último álbum ("The 2nd Law") é arrasador e chamou-me particular atenção o texto da faixa "The 2nd Law: Unsustainable", baseado no segundo princípio da termodinâmica, associado a uma poderosa e vigorosa batida dubstep...
"All natural and technological processes proceed in such a way that the availability of the remaining energy decreases. In all energy exchanges, if no energy enters or leaves an isolated system, the entropy of that system increases. Energy continuously flows from being concentrated, to becoming dispersed, spread out, wasted, and useless. New energy cannot be created and high-grade energy is being destroyed. An economy based on endless growth is unsustainable."


Não posso deixar de associar este texto a um pensamento que me assalta há já alguns anos: esta obsessão pelo crescimento económico, apanágio dos tempos modernos, parte da obscura agenda da "inevitável" globalização, é insana e só poderá levar, a prazo, a um colapso sistémico dos recursos naturais deste nosso planeta. Se, numa fase inicial, o crescimento económico poderá conduzir a uma maior qualidade de vida, ilusória porque efémera, o que é certo é que, a partir de um determinado momento, como consequência da insustentabilidade desse crescimento, o feitiço virar-se-á contra o feiticeiro...

"Free me
Free me
Free me from this world
I don't belong here
It was a mistake imprisoning my soul
Can you free me
Free me from this world"
Letra da canção "Explorers" do mesmo álbum 2nd Law - Muse