Lá fora, uma suave e tímida brisa acaricia as árvores do jardim que, síncrona e suavemente, baloiçam e ondulam, tal como as cálidas águas do Mediterrâneo (ah, doces reminiscências do doce aroma de Yasmine Hammamet !...).
O manto de relva é inundado pela prata de uma vigorosa e omnipresente Lua Cheia que desafia, formosa mas não segura, provocante e destemida, o lobisomem que existe em cada um de nós...
Os candeeiros completam esta improvável paleta de cores, projectando um intenso amarelo nesta solitária mas não inóspita paisagem.
Oiço, num maravilhoso misto de êxtase, emoção e (re)descoberta, os dois primeiros Concertos de Rachmaninov, na interpretação de Krystian Zimerman e Seiji Ozawa.
Realizo, subitamente, a impossibilidade de escrever na ausência da poderosa e inspiradora presença de uma obra de arte musical. Escrever é pulsar, é respirar, é viver... E a vida, sem Música, certamente desfaleceria, desprovida de sentido, qual girassol num planeta perpetuamente nublado...
A minha mente navega livremente e questiono-me...
Porquê "O Caminhante no Deserto", nome eventualmente presunçoso que atribuí, de forma precipitada e irreflectida, a este blog que decidi iniciar ?
Será que, de forma subconsciente, me sinto numa caminhada solitária pelo deserto, por definição um lugar estéril e desabitado ? Ou será que o deserto está dentro de mim e apenas procuro, desesperadamente, encontrar um oásis ?
Poderia, com maior probabilidade, ter escolhido "O Lobo das Estepes", nome do livro de Herman Hesse, o genial autor que deixou e continua a deixar marcas indeléveis na minha percepção do mundo e do meu universo interior...
"O Lobo da Estepe era um homem de cerca de 50 anos que, certa vez, faz alguns anos,
apareceu em casa de minha tia à procura de um quarto mobiliado para alugar. Interessou-se por um compartimento no andar superior, bem como por um dormitório contíguo ao mesmo. Voltou dias depois, trazendo consigo duas malas e uma grande caixa com livros, e morou conosco durante cerca de nove ou dez meses. Vivia muito sossegado e para si. Não fora a proximidade de nossos dormitórios nos proporcionar ocasionais encontros na escada e no corredor, e não nos teríamos conhecido, pois o homem era de fato insociável. E insociável a tal ponto que assim, estou para dizer, eu jamais observara em quem quer que fosse. Era realmente um Lobo da Estepe, conforme ele próprio, às vezes, costumava chamar-se: um ser estranho, selvagem e, ao mesmo tempo, tímido, muito tímido mesmo, pertencente a um mundo bem diverso do meu."
Poderia também, possivelmente, ter-lhe chamado, "O Fundo do Pântano", inspirado pelo "Fond de l'Etang" do filme "Les Choristes", o internato para crianças "difíceis" cujo destino é alterado, para sempre, pela forte mas sempre doce personalidade de Clément Mathieu, um professor com quem, vá-se lá saber porquê, me identifico profundamente.
E poderia perguntar-me, paradoxalmente, "Sabes quem sou ? Eu não sei.", lembrando o poema de Fernando Pessoa...
"Sabes quem sou? Eu não sei.
Outrora, onde o nada foi,
Fui o vassalo e o rei.
É dupla a dor que me dói.
Duas dores eu passei.
Fui tudo que pode haver.
Ninguém me quis esmolar;
E entre o pensar e o ser
Senti a vida passar
Como um rio sem correr."
"Sabes quem sou" - pergunto-me...
E temo, no meu mais profundo íntimo, a mera probabilidade de poder ser presunção sentir-me "poeta", nas palavras de Florbela Espanca:
"Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!"
"Sabes quem sou ?" - continuo a perguntar-me...
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