Saturday, May 25, 2013

"Sabes quem sou ?" - pergunto-me

É noite...

Lá fora, uma suave e tímida brisa acaricia as árvores do jardim que, síncrona e suavemente, baloiçam e ondulam, tal como as cálidas águas do Mediterrâneo (ah, doces reminiscências do doce aroma de Yasmine Hammamet !...).


O manto de relva é inundado pela prata de uma vigorosa e omnipresente Lua Cheia que desafia, formosa mas não segura, provocante e destemida, o lobisomem que existe em cada um de nós...


Os candeeiros completam esta improvável paleta de cores, projectando um intenso amarelo nesta solitária mas não inóspita paisagem.


Oiço, num maravilhoso misto de êxtase, emoção e (re)descoberta, os dois primeiros Concertos de Rachmaninov, na interpretação de Krystian Zimerman e Seiji Ozawa.


Realizo, subitamente, a impossibilidade de escrever na ausência da poderosa e inspiradora presença de uma obra de arte musical. Escrever é pulsar, é respirar, é viver... E a vida, sem Música, certamente desfaleceria, desprovida de sentido, qual girassol num planeta perpetuamente nublado...


A minha mente navega livremente e questiono-me...


Porquê "O Caminhante no Deserto", nome eventualmente presunçoso que atribuí, de forma precipitada e irreflectida, a este blog que decidi iniciar ?


Será que, de forma subconsciente, me sinto numa caminhada solitária pelo deserto, por definição um lugar estéril e desabitado ? Ou será que o deserto está dentro de mim e apenas procuro, desesperadamente, encontrar um oásis ?


Poderia, com maior probabilidade, ter escolhido "O Lobo das Estepes", nome do livro de Herman Hesse, o genial autor que deixou e continua a deixar marcas indeléveis na minha percepção do mundo e do meu universo interior...


"O Lobo da Estepe era um homem de cerca de 50 anos que, certa vez, faz alguns anos, 

apareceu em casa de minha tia à procura de um quarto mobiliado para alugar. Interessou-se por um compartimento no andar superior, bem como por um dormitório contíguo ao mesmo. Voltou dias depois, trazendo consigo duas malas e uma grande caixa com livros, e morou conosco durante cerca de nove ou dez meses. Vivia muito sossegado e para si. Não fora a proximidade de nossos dormitórios nos proporcionar ocasionais encontros na escada e no corredor, e não nos teríamos conhecido, pois o homem era de fato insociável. E insociável a tal ponto que assim, estou para dizer, eu jamais observara em quem quer que fosse. Era realmente um Lobo da Estepe, conforme ele próprio, às vezes, costumava chamar-se: um ser estranho, selvagem e, ao mesmo tempo, tímido, muito tímido mesmo, pertencente a um mundo bem diverso do meu."

Poderia também, possivelmente, ter-lhe chamado, "O Fundo do Pântano", inspirado pelo "Fond de l'Etang" do filme "Les Choristes", o internato para crianças "difíceis" cujo destino é alterado, para sempre, pela forte mas sempre doce personalidade de Clément Mathieu, um professor com quem, vá-se lá saber porquê, me identifico profundamente.

E poderia perguntar-me, paradoxalmente, "Sabes quem sou ? Eu não sei.", lembrando o poema de Fernando Pessoa...


"Sabes quem sou? Eu não sei.

Outrora, onde o nada foi,
Fui o vassalo e o rei.
É dupla a dor que me dói.
Duas dores eu passei.
Fui tudo que pode haver.
Ninguém me quis esmolar;
E entre o pensar e o ser
Senti a vida passar
Como um rio sem correr."

"Sabes quem sou" - pergunto-me...

E temo, no meu mais profundo íntimo, a mera probabilidade de poder ser presunção sentir-me "poeta", nas palavras de Florbela Espanca:


"Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!"

"Sabes quem sou ?" - continuo a perguntar-me...

Sunday, May 12, 2013

Insónia

É madrugada de sexta-feira ...
O relógio marca 1h28 e pressinto, escusadamente, algo que qualquer calendário lunar me poderia ter proclamado, de forma cabal, autoritária, peremptória e definitiva: é Lua Nova e um novo ciclo acaba, inexoravelmente, de iniciar-se...
E sinto-me, pura e candidamente, fascinado por essa inexorabilidade, por esse destino inevitável, por essa fatalidade...
É tão bom saber que nada, mas mesmo nada, nem ninguém, poderão travar esse processo, gizado pelo Criador Supremo, o Tecedor de Todas as Teias, simultânea e paradoxalmente  invisíveis mas reais, os elos que nos fazem, a todos, pertencer a esta mesma consciência colectiva Universal...
É que, garantidamente, não haverá qualquer Decreto-Lei, Convenção, Dogma ou Preconceito que sejam capazes de travar este processo, esta liturgia, este excelso mecanismo que deprecia, irremediavelmente, todo e qualquer relógio suíço.
Tento preparar-me, no tépido conforto do meu leito, para um sono que se deseja reparador, tão inútil mas, ao mesmo tempo, tão imprescindível...
Os meus pensamentos procuram fugir às reverberações dos depressivos noticiários das várias televisões e ecoam em mim, vá-se lá saber porquê, os versos e acordes de "Sad", uma canção do álbum "Overexposed" dos Maroon 5...

"...

Oh, but I'm scared to death
That there may not be another one like this
And I confess that I'm only holding on by a thin, thin thread

...
I'm so sad, sad"


Procuro fugir à insónia mas sou assaltado por uma fatal certeza: alguns compatriotas meus (nossos !!!), já estão, desgraçadamente, a viver no "4º Mundo", um submundo deste pretenso civilizado microcosmo em que vivemos, um verdadeiro gueto nos dias de hoje, muito para além dos muros da nossa indiferença.

E vêem-me à memória os versos da Sophia de Mello Breyner Andresen:


"Vemos, ouvimos e lemos

Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror

...

Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado"


E, subitamente, faz-se luz neste emaranhado e intrincado labirinto de pensamentos e de emoções, qual epifania. Tal como a algo distante mas sempre omnipresente Lua, que inicia, periodicamente, um novo e imparável ciclo, tal como a gentil e generosa Primavera, que, garantidamente, nos incita a renascer, ano após ano, em sintonia com a pródiga Natureza, iniciemos, todos nós, individual e colectivamente, um novo ciclo, nas nossas Ambições, nos nossos Objectivos, nos nossos Projectos, nas nossas Vidas...

Deixemos a cega e fria esquizofrenia tecnocrática dos números e o redutor funil da perspectiva exclusivamente económica e financeira...
Larguemos também o conforto de nos sentarmos, (in)comodamente, face ao nosso Muro das Lamentações, plenos de direitos mas ausentes de deveres...
Passemos ao inevitável estágio seguinte desta nossa caminhada colectiva, rumo à Consciência e Progresso Social, rumo à Iniciativa e Empreendedorismo, rumo à Participação e Cidadania, rumo a um Presente... com Futuro !!!

Wednesday, May 1, 2013

Prólogo

Fim de tarde...
Lá fora o vento frio, certamente extraviado de outras paragens mais setentrionais, sopra, implacável e assertivo, indiferente ao transir dos impotentes transeuntes. Mas, incauto, ele não se apercebe que aquece, de forma impune e definitiva, a minha ânsia de liberdade e a aversão à pacata monotonia deste monótono quotidiano.
Começo a sentir em mim uma emoção quase incontrolável e resquícios de um qualquer Monte de Santa Helena, um vulcão há muito inactivo mas nunca extinto...
Os astros (finalmente!) alinharam-se e, qual maré de sizígia, (in)comodamente sentado diante do meu portátil, eis que decido começar a navegar por mares já dantes, por outros, navegados, muito para além dos meus mais loucos sonhos, um risco assumido, a concretização de um duvidoso e já vetusto plano : a publicação de um blog...
Sei que não vai ser fácil, depois de tantos anos de torpor criativo...
Mas, por que não ?!
Tentarei ser como que um "pulsar", uma estrela de neutrões, pequena e densa que, com um período irregular e indeterminado, dependente da "veia", inspiração e tema, irá emitir, qual farol do Cabo das Tormentas, "sinais" para o mundo exterior.
Começo esta minha viagem pela "blogosfera", esta intrincada rede de pensamentos, palavras e omissões, ao som dos Muse, uma genial banda de rock inglesa que, paradoxalmente, me inspira de forma subtil mas simultaneamente profunda, arrebatadora e contundente.
O seu último álbum ("The 2nd Law") é arrasador e chamou-me particular atenção o texto da faixa "The 2nd Law: Unsustainable", baseado no segundo princípio da termodinâmica, associado a uma poderosa e vigorosa batida dubstep...
"All natural and technological processes proceed in such a way that the availability of the remaining energy decreases. In all energy exchanges, if no energy enters or leaves an isolated system, the entropy of that system increases. Energy continuously flows from being concentrated, to becoming dispersed, spread out, wasted, and useless. New energy cannot be created and high-grade energy is being destroyed. An economy based on endless growth is unsustainable."


Não posso deixar de associar este texto a um pensamento que me assalta há já alguns anos: esta obsessão pelo crescimento económico, apanágio dos tempos modernos, parte da obscura agenda da "inevitável" globalização, é insana e só poderá levar, a prazo, a um colapso sistémico dos recursos naturais deste nosso planeta. Se, numa fase inicial, o crescimento económico poderá conduzir a uma maior qualidade de vida, ilusória porque efémera, o que é certo é que, a partir de um determinado momento, como consequência da insustentabilidade desse crescimento, o feitiço virar-se-á contra o feiticeiro...

"Free me
Free me
Free me from this world
I don't belong here
It was a mistake imprisoning my soul
Can you free me
Free me from this world"
Letra da canção "Explorers" do mesmo álbum 2nd Law - Muse