Sunday, May 12, 2013

Insónia

É madrugada de sexta-feira ...
O relógio marca 1h28 e pressinto, escusadamente, algo que qualquer calendário lunar me poderia ter proclamado, de forma cabal, autoritária, peremptória e definitiva: é Lua Nova e um novo ciclo acaba, inexoravelmente, de iniciar-se...
E sinto-me, pura e candidamente, fascinado por essa inexorabilidade, por esse destino inevitável, por essa fatalidade...
É tão bom saber que nada, mas mesmo nada, nem ninguém, poderão travar esse processo, gizado pelo Criador Supremo, o Tecedor de Todas as Teias, simultânea e paradoxalmente  invisíveis mas reais, os elos que nos fazem, a todos, pertencer a esta mesma consciência colectiva Universal...
É que, garantidamente, não haverá qualquer Decreto-Lei, Convenção, Dogma ou Preconceito que sejam capazes de travar este processo, esta liturgia, este excelso mecanismo que deprecia, irremediavelmente, todo e qualquer relógio suíço.
Tento preparar-me, no tépido conforto do meu leito, para um sono que se deseja reparador, tão inútil mas, ao mesmo tempo, tão imprescindível...
Os meus pensamentos procuram fugir às reverberações dos depressivos noticiários das várias televisões e ecoam em mim, vá-se lá saber porquê, os versos e acordes de "Sad", uma canção do álbum "Overexposed" dos Maroon 5...

"...

Oh, but I'm scared to death
That there may not be another one like this
And I confess that I'm only holding on by a thin, thin thread

...
I'm so sad, sad"


Procuro fugir à insónia mas sou assaltado por uma fatal certeza: alguns compatriotas meus (nossos !!!), já estão, desgraçadamente, a viver no "4º Mundo", um submundo deste pretenso civilizado microcosmo em que vivemos, um verdadeiro gueto nos dias de hoje, muito para além dos muros da nossa indiferença.

E vêem-me à memória os versos da Sophia de Mello Breyner Andresen:


"Vemos, ouvimos e lemos

Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror

...

Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado"


E, subitamente, faz-se luz neste emaranhado e intrincado labirinto de pensamentos e de emoções, qual epifania. Tal como a algo distante mas sempre omnipresente Lua, que inicia, periodicamente, um novo e imparável ciclo, tal como a gentil e generosa Primavera, que, garantidamente, nos incita a renascer, ano após ano, em sintonia com a pródiga Natureza, iniciemos, todos nós, individual e colectivamente, um novo ciclo, nas nossas Ambições, nos nossos Objectivos, nos nossos Projectos, nas nossas Vidas...

Deixemos a cega e fria esquizofrenia tecnocrática dos números e o redutor funil da perspectiva exclusivamente económica e financeira...
Larguemos também o conforto de nos sentarmos, (in)comodamente, face ao nosso Muro das Lamentações, plenos de direitos mas ausentes de deveres...
Passemos ao inevitável estágio seguinte desta nossa caminhada colectiva, rumo à Consciência e Progresso Social, rumo à Iniciativa e Empreendedorismo, rumo à Participação e Cidadania, rumo a um Presente... com Futuro !!!

1 comment:

  1. Não me canso de ler este texto... Está absolutamente maravilhoso.

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